sexta-feira, 17 de junho de 2011

Hoje

Sigo-te, desajeitadamente, por entre estas ruas vazias de espaço. Não me escondo. Não me incomoda que me vejas pelo reflexo da montra que finges olhar. Continuo a seguir-te. Mais perto, agora.

Agarro-te pela cintura, sem sequer disfarçar, mesmo em frente à mercearia do Ezequiel. Vestes-te de uma surpresa ensaiada e ameaças gritar-me ao ouvido. Ignoro-te e ignoro o mundo que nos olha.

Arrasto-te para o primeiro vão de escada, ali, na esquina da livraria velha. Beijo-te à força, com força, até que a amostra da tua resistência se funda com o fogo da minha vontade. Rasgo-te a vergonha fingida em minúsculos pedaços de prazer, que mantenho entre os meus dedos que te agarram e a tua pele que me queima.

Percorro cada centímetro do teu pescoço, às cegas, às escuras, surdo aos teus mudos protestos. Encosto-te contra a parede, paredes meias, já sem meias, que só atrapalham. Murmuro-te ao ouvido, ordeno-te agora que não gemas, para que me ouças enquanto me chego. Aproximo-me...

Monto-te e desmonto-te, como uma caixa de legos despojada de instruções, perdidas entre as peças de roupa atiradas ao acaso e o suor que nos escorre do peito. Faço-te em figuras, que monto com as mãos e desmonto com a boca. Encaixo-me em ti, como derradeira peça de um puzzle agora completo, que te ilustra de costas voltadas, cabelos soltos e punhos cerrados em torno de nós.
Suplicas-me para que não pare.

Hoje não há verdade ou consequência.
Nem uma, nem outra...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Imóvel

Escalo a parede das memórias com uma destreza inusitada, na ânsia de me afastar de mim. Percorro, com o olhar apressado, cada espaço vazio onde outrora viveram momentos emoldurados. Perscruto em silêncio cada recanto da sala, em busca de um conforto esquecido. De relance, espreito a cozinha, onde as minhas sombras se amontoam num festim de segredos inanimados. Ao fundo, no quarto, acumulam-se palavras e gestos retraídos, escudados pela ausência de luz. Atropelo-me pelo estreito corredor despido, na vontade não de chegar, mas de sair. A velha porta, empenada e bafienta, jaz agora, escancarada, à minha frente.

E eu, ainda aqui...

domingo, 24 de abril de 2011

Pressentimento

Assombra-me este atroz pressentimento,
Esta certeza, este saber, esta verdade,
Este sentido que me inverte a realidade,
Este nada, que reduz tudo o que aumento.

Assusta-me saber-me em fogo lento,
Numa luta desigual contra a vontade
De fugir, de me esconder da liberdade,
Sufocado pelo ar que é meu sustento.

Tenho medo da certeza incontornável,
Do destino, do acaso, deste fado,
Que há quem diga escrito inevitável.

Receio, sobretudo, inconformado,
Esta ânsia que sinto, inconfessável,
De prever esse futuro não sonhado...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Em mim

"Tenho, em mim, todos os sonhos do mundo."

À excepção do teu. E do meu.
Fora ele o nosso e só me faltaria um.

Faltam-me dois. Sobram-te?

Verborreia

Tenho. Quero. Posso e mando. No que não tenho. No que não quero. No comando. Da televisão. Nas paredes da sala, caiadas de branco meu. Meu. Porque posso. Porque quero. Porque me quer. O branco. Cinzento. Azulado. Escuro. Quase negro. Preto. Da cor das paredes. Da sala.

Insulto. Ofendo. Desculpo. Perdoo. Não. Talvez. Nunca. Quem sabe, amanhã? Dia de missa. Santa. Como eu. Como tu. Como ninguém. Sacra. Casta. Castanha. Amarela. Esverdeada. Da cor das paredes. Da sala.

Firme. Seguro. Segura. A escada. A corda. Porque me escalo. Que me amarra. Solta. Me. Liberta a verdade. Liberdade. Guerra. Sangue. Vermelho. Vivo. Da cor cor das paredes. Da sala.

Pernas. Para que te quero. Queru? Queijo. Marmelada. Romeu e Julieta. Perneta. Perna de pau, Supermaxi. Verão. Inverno meu. Saudade. Volta. Neve. Branca. Alva. Pura. Da cor das paredes. Da sala.

Cansaço? Sim. Sono? Muito. Demais.
Mais? Não, obrigado.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tulipa

Revejo-te. Na ponta de um sorriso que me traz o teu nome, no fundo das memórias que te guardo. Bem aqui, gravada em mim.

Fecho os meus olhos para encontrar os teus, doces avelãs, amarras do meu porto seguro. O teu sorriso, lindo, do tamanho do mundo, que esconde em si todos os meus segredos. Recordo as tuas palavras, os teus gestos, os nossos silêncios.
Revejo-me em ti.

Acompanho-te, em cada passo, nesta longa caminhada. Seguro a tua mão, com força, agarrado à vontade de não mais a largar. Vigilo o teu sono e combato os teus fantasmas. Amparo as tuas quedas, como sempre fizeste com as minhas.

Abraço-te, com um carinho que ultrapassa a razão e sussurro-te, no limiar do sonho em que te encontras:
"És exemplo. És força. És coragem.
Acredito em ti. Sou, em ti."

Não te deixarei cair!

domingo, 16 de janeiro de 2011

For you, my heart, my son...

I carry your heart with me

I carry your heart with me (I carry it in
My heart) I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
By only me is your doing, my darling)

I fear
No fate (for you are my fate, my sweet) I want
No world (for beautiful you are my world, my true)
And it's you are whatever a moon has always meant
And whatever a sun will always sing is you

Here is the deepest secret nobody knows
(Here is the root of the root and the bud of the bud
And the sky of the sky of a tree called life; which grows
Higher than soul can hope or mind can hide)
And this is the wonder that's keeping the stars apart

I carry your heart (I carry it in my heart)


by E. E. Cummings

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

What if

Sometimes I wonder what if...

What if you hadn't crossed my life?
What if your name was different?
What if yes and no were tangled?
What if my name was different?

... What if?

Would I still be me?!?
I wish...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Tempo

Encolho-me no tempo que passa, na esperança de que não me note. Encubro-me na sombra das suas horas e abandono-me aos seus desígnios, num estranho jogo de apanha-esconde. Eu, ali, parado. O tempo, algures, atrás de mim. Ambos fugimos.

Aninho-me no conforto de um silêncio encenado e sustenho a respiração. Até ficar azul. Até que todas as cores me abandonem e eu me confunda com o branco da parede que me abriga. Talvez assim lhe escape. Talvez, desta, passe por mim. Talvez.

Deixo-me cair, vencido pelo ar que me falta e sorvo, em lufadas ofegantes, o pouco tempo que ainda me resta. Sinto-o a observar-me, pausadamente, sem pressas, com todo o tempo do mundo. O seu. O meu. O nosso.

Eis que se agiganta perante mim um bicho horrendo, de sete cabeças, vinte e quatro braços e sessenta olhos colados em mim. Sorri-me, docemente.

- Apanhei-te. É a tua vez!
- Desisto. Ganhas sempre...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Crowd

I feel lonely when I'm not alone.

Can't seem to find my face in the crowd,
Hidden in the eyes that see through me
And dwel in delusions of make believe.

Don't recognize the smiles I fake so well,
To go with the words I pretend to tell
To those heavenly faces in this living hell.

I feel so lonely when I'm not alone...